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Ferida nas Águas é lançado em Brasília em noite marcada por denúncia, memória e resistência dos povos das águas

Documentário do CPP foi exibido durante a Plenária da Campanha Contra a Violência no Campo e reuniu representantes de movimentos sociais, pastorais sociais, pesquisadores/as e comunidades tradicionais

07-05-2026
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Texto: Henrique Cavalheiro - Comunicação do CPP | Fotos: Louise Campos - Comunicação do CPP

 

Brasília anoiteceu luminosa nesta quarta-feira (6). O céu estrelado e o clima típico do cerrado nesta época do ano acolheram o lançamento do documentário Ferida nas Águas, realizado pelo Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP), no Centro de Estudo Sindical Rural (CESIR), durante a programação da Plenária da Campanha Contra a Violência no Campo.

O lançamento aconteceu no mesmo dia em que a Câmara dos Deputados aprovou a Projeto de Lei 2780/24, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, medida voltada à ampliar incentivos públicos e bilionários para a mineração no Brasil, aprofundando a exploração dos territórios e da natureza em nome do chamado “desenvolvimento”. Enquanto o Brasil discutia, no Congresso Nacional, caminhos para aumentar a mineração, em outro ponto da capital federal, vozes de pescadores e pescadoras artesanais, agentes de pastoral e especialistas denunciavam as marcas profundas deixadas por esse modelo de exploração nos territórios e nas águas.

Durante cerca de 40 minutos, o auditório permaneceu em silêncio. Olhares atentos acompanharam cada relato, cada imagem e cada memória apresentada na tela. Ferida nas Águas desvela aquilo que raramente ganha espaço nos discursos oficiais sobre mineração: as dores das comunidades atingidas, a contaminação das águas, o adoecimento físico e emocional, a perda da pesca, da alimentação, da renda e das formas tradicionais de viver. O que também impacta a área urbana.

Quando o rejeito marca o corpo e a alma

Após a exibição, iniciou uma roda de conversa. Presente no lançamento do documentário em Brasília, o pescador Adeci de Sena, da comunidade de São Mateus (ES), emocionou o público ao relatar as consequências permanentes do crime da Samarco em sua comunidade. “Aquilo ali é uma coisa que chama a atenção, que acontece todos os dias. Só doença que você não conhece, médico não sabe”, disse o pescador ao relatar o aparecimento de inúmeras doenças no território que antes da chegada dos rejeitos não eram comuns. Adeci também denunciou a ausência de assistência adequada às comunidades: “não tem funcionário preparado na área pra te dar um recurso, um pequeno remédio, que não sabe… e aquilo ali tá matando as pessoas”, denunciou.

Ao falar sobre as promessas das empresas quando chegam para iniciar a exploração com falsas promessas para as comunidades, o pescador lembrou que, “A empresa chega com características, pode abraçar, que vai ser isso… depois que para de existir, pega sua assinatura, aí desaparece”, disse.

Territórios feridos, memórias ameaçadas

Responsável pela produção do documentário, a agente de pastoral do CPP, Andréa Rocha, destacou que Ferida nas Águas busca revelar “o quanto o capital rasga os territórios e as vidas, de tudo o que existe nesse território, de todas as formas de existir que tem ali, a natureza, os povos, a cultura, a ancestralidade”, disse.

Segundo ela, por exemplo, a comunidade quilombola e pesqueira de Porto Grande, no Espírito Santo, onde parte significativa das imagens foi gravada, trata-se de um território “que já é ameaçado, que foi rasgado, ferido pelo crime da Samarco e outros, agora ele corre o risco de ser também rasgado, ferido, machucado pela exploração de sal-gema”, alertou. Andréa afirmou que o documentário busca “dar visibilidade ao que a mineração provoca no território pesqueiro, mas a gente também dialogou com outros territórios, e estar aqui nesse espaço da campanha contra a violência no campo, nas águas, na floresta, quer dizer isso, porque o capital, através da mineração, ele rasga e fere as águas, usando a floresta”, concluiu.

O adoecimento silencioso das comunidades

Representando o Território Quilombola de Sapê do Norte e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), João Quilombola relacionou os impactos da mineração ao avanço do adoecimento e à expulsão histórica das comunidades tradicionais de seus territórios. Emocionado ao lembrar de Seu Bi, homenageado no documentário, afirmou que “ter a imagem do Seu Bi, pra mim, é uma referência”, recordando os momentos em que esteve ao lado do pescador nas estradas e nas lutas do território.

Ao falar sobre os impactos da mineração, destacou que “Recente, a gente tem impactos que é causado diretamente na saúde humana. E no São Pedro Norte, ultimamente, tem aumentado muitos casos de câncer nas pessoas. E são informações que a gente vem, cada vez mais, tentando descobrir o que está acontecendo com a saúde da população”.

“Muitas famílias quilombolas, hoje, estão com muita dificuldade de sobrevivência alimentar a partir da contaminação. Pescadores das costas, das comunidades pesqueiras, que viviam da pesca, do bicho contaminado, a água contaminada, o número de casos de câncer, a saúde e os descasos”, finalizou João.  

A mineração como projeto de violência permanente

Representando o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Pablo Montalvão destacou que Ferida nas Águas se torna “um material excelente que abrange muitos aspectos do que significa a indústria mineradora. Creio que este se torna um material para concentração, trabalho de base, e traz diferentes espaços”, destacou Montalvão.

Segundo ele, o documentário reúne “muitos elementos e reflexões em torno desse modelo de mineração e suas manifestações na sociedade, principalmente nos povos das águas”, disse. Pablo também alertou para o aumento da violência ligada aos conflitos minerários no país: “o conflito da mineração tem se tornado cada vez mais violento, especialmente nas águas”. Em sua análise, os efeitos das políticas minerárias são estruturais e de longo prazo: “uma lei, uma política, como a que temos hoje, terá resultado daqui a 10 ou 15 anos”, afirmou, relacionando esse processo ao avanço das commodities minerais, à privatização da Vale e às tragédias de Mariana e Brumadinho.

A gente só queria viver em paz

Representando a Campanha Contra a Violência no Campo e o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Vanusa Ferreira destacou a emoção provocada pelo documentário e relacionou os impactos da mineração às violências vividas também no campo. “A gente só queria isso: plantar, pescar, comer alimentos saudáveis. E aí vem o capital, em nome do poder, da ganância, e destrói tudo, né? São milhares de famílias, tanto na pesca, no campo, nas comunidades tradicionais, é avassalador o que o capital faz em nome de um poder maior. Dói muito ver essas famílias, é muito triste”, afirmou.

Em sua fala, Vanusa também ressaltou a importância da resistência coletiva: “quando a gente vê a resistência de vocês e a luta de vocês, a gente sai daqui mais animado pra estar nessa luta. Porque a gente não quer nada demais, a gente só quer o que já é nosso, a terra, o peixe, a água, que é a nossa casa comum”, ressaltou.

Entre o mito do progresso e a arquitetura da impunidade

Frei Rodrigo Péret, da Comissão Especial de Ecologia Integral e Mineração da CNBB (CEEM/CNBB), destacou que uma das grandes contribuições de Ferida nas Águas é “desvelar o que é a mineração. Porque se de um lado os chamados crimes, desastres, levantaram na população dúvidas e uma série de embates em relação ao mal que a mineração causa, esse filme nos coloca que o cotidiano e o dia a dia da mineração, ele é agressivo, ele é contaminador, ele mata, ele impacta”, ponderou.

Para Frei Rodrigo, esse aspecto do filme é fundamental principalmente nesse momento, em que o país avança em políticas de incentivo à exploração mineral sem discutir profundamente suas consequências sobre os territórios e as populações atingidas.

Ao refletir sobre o avanço da mineração no Brasil, o religioso afirmou que existe uma relação entre a ilusão do progresso e a insegurança dos territórios. “A combinação entre os territórios, com o mito do desenvolvimento, com o mito de que a mineração vai transformar, no mundo hoje, ela tem a solução para o desenvolvimento da humanidade. O sujeito começa a imaginar, e quando ele percebe, o pesadelo está instalado”, disse.

Frei Rodrigo também criticou a ausência de debate sobre impactos socioambientais nas propostas legislativas relacionadas às terras raras e ao setor mineral. “Não existe uma linha a respeito dos impactos”, afirmou, e acrescentou que “a mineração é alimentada por uma arquitetura da impunidade. Onde? As instituições do Estado, elas estão em conluio com o setor mineral. E hoje, não faz força, porque é o setor mineral que foi colocado no topo da solução do mundo que nós vivemos”, observou Péret.

Uma ferida que permanece aberta

O documentário mostra como a mineração impacta diretamente comunidades pesqueiras tradicionais. Participam do filme pescadores e pescadoras artesanais do Espírito Santo atingidos pelo rompimento de barragens, além de relatos sobre contaminações causadas pela mineração no Ceará, Amazonas, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba e Pernambuco. Entre os entrevistados estão agentes pastorais, lideranças comunitárias, integrantes do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), representantes da Igreja Católica e especialistas em ecologia integral e mineração.

Ao longo do filme, uma pergunta atravessa os testemunhos e reflexões: desenvolvimento para quem? O documentário questiona a lógica que associa mineração a progresso sem considerar os territórios destruídos, os rios contaminados e as vidas interrompidas. Produzido a partir de um processo iniciado em 2024, Ferida nas Águas nasceu de formações e escutas realizadas pelo CPP sobre mineração e territórios pesqueiros.

A memória que é semente de esperança

Antes dos créditos finais, a exibição prestou homenagem ao pescador artesanal Benedito Matias Porto, o Seu Bi, de Conceição da Barra (ES), que participou das gravações e faleceu antes da conclusão do documentário. Sua presença emocionou o público e simbolizou a memória viva das comunidades que seguem resistindo.

Ferida nas Águas terá novas exibições em diferentes cidades do país nos próximos meses. Posteriormente, o documentário também será disponibilizado nos canais on-line do CPP.

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