
Entre 2014 e 2016, o Papa Francisco reuniu-se com movimentos populares em Roma e na Bolívia, encontros que se tornaram referência na relação entre Igreja e sociedade, através de um mergulho profundo, onde a caridade, que por muitas vezes foi confundida com assistencialismo, vinda de cima para baixo, mediante uma inversão histórica, transformou-se na Mística da Escuta. Ocorre uma quebra de paradigma, onde o centro do poder, que fala e espera que o resto do mundo escute, passou a escutar catadores, camponeses, pessoas em situações de rua, ou seja, o Vaticano não sendo o epicentro das decisões, mas ao contrário, os descartados, foram validados com voz ativa, tornando-se partícipes das decisões.
Papa Francisco, no decorrer destes encontros, em suas falas, destacou que os pobres não são meros destinatários de caridade, mas protagonistas de sua própria história. Sua postura reafirma uma Igreja aberta ao diálogo com diferentes culturas e crenças, valorizando a diversidade como caminho para a justiça. E o Papa Leão XIV, destaca em sua Exortação Apostólica Dilexi Te, ao abordar a questão da Caridade cristã, afirmando que é uma questão de justiça, presença e compromisso, e o lugar do pobre, como um lugar Teológico, o que nos mostra, continuidade e não uma ruptura na caminhada histórica da Igreja.
No primeiro encontro, Francisco apresentou os três “Ts” — Terra, Teto e Trabalho — como direitos sagrados. Denunciou a concentração de terras, o déficit habitacional e a precarização do trabalho. Em Santa Cruz de La Sierra, reforçou a necessidade de mudanças estruturais, propondo uma economia a serviço dos povos, união pela paz e defesa da Mãe Terra. Já no terceiro encontro, em Roma, criticou o colonialismo ideológico globalizador e o sistema baseado no medo, chamando-o de “terrorista”. Como alternativa, defendeu construir pontes com amor e inclusão, além de incentivar a participação política ativa. A memória desses encontros revela duas ideias centrais: a cidadania ativa, que supera a visão limitada ao consumo e fortalece a democracia participativa; e o decrescimento, como alternativa ao mito do crescimento infinito, em favor de uma sociedade mais equilibrada e sustentável. Francisco surge, assim, como sinal de esperança, apontando para um futuro justo e fraterno, sustentado pelo respeito à diversidade cultural e religiosa. No decorrer destes encontros dos Movimentos Sociais, Papa Francisco, independente da religião, cultura, ou “crença", transcendeu ensaios teológicos, focou na defesa da dignidade humana, formando aliança contra qualquer tipo de exclusão. Baseado nas encíclicas Laudato Sì e na Fratelli Tutti, o Papa, ultrapassa o status de comunicação interna da Igreja, transformando em manifestos globais através da ecologia global e da fraternidade universal.
Dom José Altevir da Silva, CSSp
Bispo da Prelazia de Tefé – AM e
Presidente Nacional do Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras
25 de fevereiro de 2026
