Reunidos no Território Quilombola Tanque da Rodagem e São João, em Matões (MA), de 2 a 6 de julho, povos e comunidades tradicionais de todo o estado aprovam Carta Política que reafirma a defesa dos territórios, o enfrentamento aos agrotóxicos, a luta por direitos e o compromisso com o bem viver
Texto: Comunicação da Teia do Maranhão
O perfume das folhas e das águas de cheiro, a fumaça da defumação desenhando o ar sob a casa redonda, a terra vermelha do Cerrado maranhense aquecida pelo sol forte de julho. Era assim que o Território Quilombola Tanque da Rodagem e São João, em Matões (MA) recebia quem chegava. Ali, não havia espectadores; era gente disposta a partilhar a vida, a memória e a luta.
De todos os cantos do estado chegaram indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, pescadores e pescadoras artesanais, ribeirinhos, camponeses, sertanejos, juventudes, crianças, anciãos e organizações aliadas e parceiras, como o Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras, regional Maranhão. Sementes crioulas guardadas por gerações, cestos de palha, bandeiras, tambores, maracás, cantos, rezas e encantarias. Também ocupavam o espaço aquilo que não cabe nas bagagens: as cicatrizes dos conflitos, as histórias de resistência e a esperança insistente de quem segue defendendo o território como extensão do próprio corpo, pois de fato é.
Durante cinco dias, entre 3 e 6 de julho, cerca de mil pessoas transformaram o território em uma grande casa comum. Enquanto crianças corriam livres entre as palhoças, panelões alimentavam centenas de pessoas, sementes circulavam de mão em mão e os tambores marcavam o compasso das celebrações, as vozes também denunciavam a violência, o avanço do agro-hidro-mineronegócio e a contaminação dos territórios pelos agrotóxicos. Mais do que um encontro, a Teia reafirmou aquilo que sustenta sua existência há quinze anos: ninguém luta sozinho. Naquele chão sagrado, celebrar, denunciar, aprender e esperançar eram partes do mesmo gesto coletivo. Território vivo recebendo outros plurais territórios.
A marcha que levou o território para as ruas
Na manhã do dia 4 de julho, os pés e os tambores se estendem da comunidade às ruas de Matões (MA). A cidade escutava, ali, denúncias daquilo que, por muito tempo, tentaram invisibilizarde forma estratégica, pelos opressores nos territórios tradicionais. O grito ecoou. Quem tinha ouvidos para ouvir, ouviu.

Faixas, cartazes, maracás, danças e palavras de ordem abriram caminho para uma marcha marcada pela denúncia das violações enfrentadas não apenas pelos povos de Matões, mas por comunidades tradicionais de todo o estado. O centro da cidade transformou-se em um grande espaço de mobilização popular. No microfone aberto, um relato sucedia a outro: conflitos fundiários, pulverização aérea de agrotóxicos, destruição ambiental, mineração, violência contra lideranças, ameaças aos territórios e a omissão do poder público em todas as suas esferas.
Mas a caminhada também carregava esperança e alegria. A cada canto coletivo, a cada tambor e maracá balançado, respondendo às palavras de ordem, reafirmava-se que a resistência também se constrói caminhando juntos e juntas.
"O Encontrão da Teia é muito importante. Tá sendo maravilhoso, porque a gente tá reencontrando pessoas que nos ajudaram quando a gente estava precisando, lá em 2021, quando passamos por um conflito. Essas pessoas nos ajudaram a nos fortalecer e a dar continuidade à nossa luta. Agora, a gente tá tendo essa troca novamente, de experiências e de saberes. É bom demais estarmos todos juntos novamente. A Teia vai deixar ainda mais saberes, vai fazer com que a gente se una mais e fortaleça ainda mais a nossa comunidade", afirma uma liderança quilombola do Território Tanque da Rodagem.
Saberes que brotam como sementes
No domingo, 5 de julho, se as denúncias revelaram as urgências do presente nos dias anteriores, as rodas de conversa apontaram os caminhos do futuro. Ao longo da programação, os povos organizaram-se em diferentes esteios da Teia para discutir soberania alimentar, saúde, comunicação, educação, autogestão, economia, defesa dos territórios e relações de gênero.

Não eram debates abstratos. Cada proposta nascia da experiência concreta dos territórios: do banco comunitário criado por uma comunidade, das práticas tradicionais de cuidado em saúde, da comunicação feita no chão dos territórios, da preservação das sementes crioulas e das formas coletivas de organização que sustentam o bem viver.
Os troncos velhos guardam o amanhã
Na manhã da segunda-feira, 6 de julho, centenas de sementes foram reunidas. Vindas de diferentes territórios, carregavam histórias, famílias, modos de plantar e de existir. Livres de transgênicos e de venenos, passaram de mão em mão ao som das cantorias, das preces e dos maracás, envoltas pelo respeito e pela sacralidade que lhes são próprias.
Não era apenas uma troca. Era um pacto entre gerações e culturas. Cada semente levada de volta para casa carregava consigo o compromisso coletivo de preservar a biodiversidade, fortalecer a soberania alimentar e garantir que os conhecimentos ancestrais continuem vivos.
Logo depois, os Encantados chegaram à plenária. Os tambores voltaram a pulsar. Os maracás marcaram o ritmo. As cantorias atravessaram o espaço lembrando que a luta também precisa alimentar o espírito. Ali, Cronos já não ditava o tempo. As horas deixaram de ser medidas. Tudo acontecia na duração necessária de cada canto, de cada ritual e de cada silêncio. Era outra lógica, outro compasso, outra maneira de habitar o tempo.
Uma carta escrita com muitas vozes
O encerramento do 17º Encontrão aconteceu como toda a Teia se constrói: coletivamente. Após dias de escuta, debates e construção política, foi aprovada a Carta do 17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão.
Resultado das reflexões construídas ao longo dos cinco dias de programação, o documento reafirma o compromisso com a defesa dos territórios, o enfrentamento aos agrotóxicos, a luta contra o marco temporal, a proteção das águas, dos babaçuais e das espiritualidades, além de assumir o bem viver como horizonte político comum. A Carta também expressa a preocupação com o cenário eleitoral de 2026, defendendo o enfrentamento de projetos políticos que colocam o lucro acima da vida, da natureza e dos direitos dos povos tradicionais. Ao afirmar que os povos são sujeitos políticos, a Teia assume o compromisso de fortalecer uma participação popular comprometida com a democracia, a justiça socioambiental e a defesa dos territórios.
A Carta ainda homenageia a trajetória construída ao longo dos 15 anos da Teia e convoca as novas gerações a assumirem a missão herdada dos "troncos velhos", reafirmando que a continuidade dessa luta depende da união entre memória, ancestralidade e organização popular.
As caravanas partiram. Mas quem esteve no Território Tanque da Rodagem e São João levou consigo algo impossível de guardar apenas na memória: a certeza de que uma Teia continua viva porque seus fios são feitos de gente que planta, que reza, que denuncia e que insiste. Porque, como lembra a frase que conduziu todo o Encontrão, "com a força dos troncos velhos, brota a nossa resistência".

